Sábado, 12 de Maio de 2012

Foral manuelino de Ponte de Lima II - análise codicológica


Características materiais do foral manuelino de Ponte de Lima

O foral manuelino de Ponte de Lima é um códice de pergaminho, constituído na sua base por dois cadernos teoricamente de quatro folhas cada um, com o texto do foral (o último fólio apenas com uma assinatura e o verso em branco). Dissemos “teoricamente” porque no primeiro caderno o que deveria ser o terceiro bifólio, correspondente às folhas 3 e 6, foi substituído por duas meias folhas, introduzidas no meio das outras. No início foi-lhe acrescentado um fólio em branco e um bifólio, destinado ao índice ou tabuada das matérias, colocado no verso do primeiro fólio e na frente do segundo.
Este conjunto de fólios constituía o códice original, como se verifica pela existência de um furo no cruzamento da margem interna com a inferior, destinado à passagem do cordão que suportava o selo régio de chumbo, que autenticava o documento. Posteriormente ser-lhe-ia acrescentado, no fim, mais alguns fólios e um fólio avulso, onde, pelos tempos fora, viriam a ser exarados os vistos dos corregedores. As guardas da capa são também constituídas por folhas de pergaminho, no início e no fim.
 A capa de 280 x 195 mm., em que o foral se encontra encadernado é de carneira escura, sobre duas tábuas de madeira, que lhe conferem resistência. Recebeu uma  decoração, gravada com ferros a frio, utilizando motivos geométricos e estilizados, constituída por  uma cercadura de barras rectilíneas preenchidas com entrançados, no interior da qual se cruzam outras barras em diagonal, preenchidas com idêntica decoração. Sobre esta decoração foi aplicados ornatos de latão, constituídos pelas armas de D. Manuel, no cento, e uma esfera armilar em cada ângulo, tanto na capa (onde uma já está perdida) como na contracapa. Presos a estas, dois broches de latão (dos quais apenas se mantém as dobradiças) serviam para fechar o livro. A lombada está em muito mau estado.

 ESQUEMA DA ESTRUTURA DO CÓDICE

 Numeração romana:
                Sem n.º                        Fol. I-VIII                       Fol. IX-XVI           Sem n.º
                                   Fólios iniciais                    Caderno 1                       Caderno 2         fólios posteriores

Na disposição dos vários fólios foi seguida a chamada regra de Gregory. Diz-se assim porque Caspar Renatus Gregory, estudioso da tradição textual do Novo Testamento, em finais do século XIX, foi o primeiro a verificar que nos scriptoria medievais havia o cuidado de organizar os fólios dos códices de modo que ficassem frente a frente idênticos lados do pergaminho, isto é, como se costuma dizer, carne com carne e pelo com pelo, o que se entende, sabendo que o pergaminho era elaborado a partir da pele animal, geralmente de cordeiro. Tendo as duas faces diferentes índices de absorção de tinta e de aspereza, que se repercutem no brilho da respectiva superfície e na vivacidade da escrita, é natural que os escribas procurassem a uniformidade visual das páginas situadas frente a frente, que ficavam abertas ao mesmo tempo.
Do processo seguido na organização do códice resulta o facto de a numeração original se iniciar na folha em que principia o texto que constitui o teor do foral, valorizado também por uma iluminura. Ocupa esta a parte superior do rosto da primeira folha e tem como motivo as armas do Reino no tempo de D. Manuel, rodeadas por duas esferas armilares de ouro; segue-se uma faixa com o nome de DOM MANUEL a toda a largura, em capitais douradas; a janela de texto, na parte inferior, é rodeada por uma cercadura de motivos vegetais, sobre fundo amarelo, constituídas por duas espécies de folhas, umas acastanhadas ou azuis e outras verdes, e, na base três flores azuis e uma encarnada.. Embora se destinasse a conferir beleza e aparato ao documento, a composição é relativamente singela e aligeirada.
A numeração foi colocada no rosto das folhas, ao meio, na margem superior, em números romanos, precedidos de um caldeirão. A organização da página obedece a um esquema relativamente simples: a caixa de texto está inscrita num rectângulo, cujas medidas andam pelos 180 mm., de altura, e os 120 mm. de largura, delimitado por linhas ténues, com pouca intensidade de pigmento, e subdividido em 25 linhas, correspondentes a 24 linhas de escrita, por subtis traços horizontais, cuja execução se apoiou numa discreta picotagem feita na extremidade das folhas. Todavia, o fólio n.º  III tem mais uma linha, em ambas as faces, o que naturalmente resulta do facto de ser retirado de um conjunto de folhas destinadas a outro manuscrito.
De modo diferente foram organizadas as páginas da “tavoada”, repartidas em duas colunas delineados de modo menos acurado.
As diversas cláusulas do foral iniciam-se com letras maiúsculas miniadas a vermelho, inscritas num quadrado com a altura correspondente a duas linhas, com decoração em filigrana. São também precedidas por caldeirões a vermelho as frases em que se subdividem vários parágrafos. Em correspondência com a maior parte das iniciais iluminadas e com alguns dos caldeirões inseridos no texto, foram colocadas rubricas nas margens, a indicar o assunto, precedidas também de um caldeirão. O facto de ter de suportar esses rubricas fez com as margens externas fossem mais largas do que as internas.
Apenas três rubricas, as que iniciam as secções relativas às portagens, foram incluídas na mancha principal do texto. Em séculos posteriores, introduziram-se alguns acréscimos, como a numeração das folhas e dos articulados com algarismos. O texto foi escrito num tipo de letra designada como humanística librária, a que, em Portugal, se costuma chamar leitura nova, por ter sido usada na cópia dos antigos documentos feita na mesma época.
O texto central conclui, na fol. XIV v.º, com a data e a assinatura de D. Manuel. Ao fundo da página encontra-se a subscrição do chanceler-mor Rui Boto:
foral pera pontede lyma R [monograma de Rui Boto]
No rosto da fl. XV, vem o averbamento:
Registado no tombo Fernã de Pyna
Embora se possa dizer que este foral se encontra razoavelmente bem conservado, não carece de falhas e imperfeições, algumas já de origem, correspondentes a defeitos iniciais do pergaminho, a imperfeições do curtimento ou a agressões que resultaram das inclemências a que esteve sujeito com a passagem do tempo. Como é natural, observam-se algumas manchas, devidas quer ao manuseamento de que foi objecto, quer à acumulação de algumas poeiras ou de outras impurezas. A tinta escura da fl. I rosto, pela sua intensidade, atingiu o verso, prejudicando a respectiva leitura. O fio da cosedura dos cadernos mais antigos (isto é, dos que correspondem às fls. de I a XVI v.º) parece ainda o original.

A concluir esta análise do aspecto material e visual do códice, convém notar que, embora elaborado com um certo cuidado, para lhe dar uma aparência condizente com a importância atribuída ao documento, não se trata de uma obra realizada com especial requinte estético. O foral era, com efeito, um instrumento de cariz predominantemente administrativo, o que explica que na sua elaboração não existisse tanto esmero como aquele que acompanhou a execução de outros códices iluminados. A própria iluminura da folha inicial do texto é, como já referimos, nitidamente modesta e aligeirada, se fizermoa a comparação com outros manuscritos da mesma época. Também as folhas de pergaminho se não podem catalogar entre as de preparação mais apurada. , Explicam-se dentro deste enquadramento algumas falhas na escrita e no alinhamento do texto, caligrafado com a preocupação de consumir o menos tempo possível, dentro dos limites que as características do documento consentiam
Embora, em razão do seu conteúdo, no fundo pouco mais do que o de uma pauta fiscal, e da sua forma singela dentro da opulência que caracteriza a arte manuelina, os forais novos não tenham o valor que por vezes se lhes atribui (maior em localidades que não beneficiaram de um foral anterior), são, apesar de tudo, documentos com interesse, que merecem ser conservados, estudados e conhecidos pelo público. Por essa razão nos abalançamos a empreender este estudo, destinado a enquadrar a edição do foral manuelino de Ponte de Lima.

Sexta-feira, 4 de Maio de 2012

Ponte de Lima e as mais antigas vilas de Portugal

A vila antiga (reconstituição imaginária) - desenho de Justininho, 
colorido por J. G. Costa

O foral de Ponte de Lima é um dos mais antigos de Portugal. Antes de Ponte de Lima, mais de uma dezena de localidades portuguesas recebeu foral, se nos ativermos apenas aqueles que foram outorgados pelo poder central. A esses poderemos somar mais alguns, outorgados por outras entidades.
   Podemos conferir a respectiva lista: Forais Portugueses (1055-1126)

     Os mais antigos forais relativos a território português foram outorgados ainda pelo rei de Leão e tiveram como destinatárias as povoações de S. João da Pesqueira, no Alto Douro, em data que se não conhece mas deverá situar-se entre 1055 e 1065, de Coimbra, em 1085 e 1093, e de Santarém, em 1095. Estes forais correspondem ao avanço da reconquista para sul e destinavam-se a criar um estatuto de reconhecimento oficial e de favor em relação aos habitantes destas povoações, para estimular a sua fixação no local, o seu interesse pela defesa colectiva e, por conseguinte, o seu empenho na consolidação da linha de fronteira e na luta contra os mouros.
      Podemos afirmar que objectivos semelhantes estiveram presentes na elaboração dos forais de Tentúgal, em 1108, de Aguiar da Beira, entre 1102 e 1112, de Coimbra, Sátão e Soure, em 1111. Não esqueçamos que a fronteira sul do território não se manteve sempre a mesma, pois houve diversos avanços e recuos, correspondendo, na altura em que surgiu este conjunto de forais, mais ou menos, à linha do Mondego.
    Por volta de 1096, pois não são datados, são redigidos os primeiros forais cujo aparecimento não estava ligado à defesa do território mas sim ao seu desenvolvimento. É o caso dos forais de Guimarães e de Constantim, que tiveram como função a de criar as melhores condições para a fixação de “burgueses”.
      Os burgueses – comerciantes e mesteirais – eram então os protagonistas da onda de desenvolvimento que começara a alastrar pela Europa, desde a segunda metade do séc. X. Com efeito, grupos de emigrantes, especialmente francos e outros por eles influenciados, deslocaram-se para o ocidente, seguindo o mesmo caminho dos peregrinos de Santiago de Compostela e estabelecendo-se nas suas margens. Assim, é à volta desse caminho que mais se desenvolve a actividade mercantil e artesanal, se restaura a vida urbana e aparecem os novos municípios.
      O espírito de iniciativa e de arrojo que os anima e a força que põem na defesa das melhores condições para o exercício da sua actividade traduz-se nos próprios vocábulos que nós herdámos dessa época: burgo, burguês, franco, franquia, franqueza…
Com a sua fixação aparecem novos núcleos urbanos, alguns totalmente novos, outros nos arrabaldes das antigas cidades episcopais, nas proximidades de uma fortaleza importante ou de um mosteiro, e sempre, de qualquer modo, em lugares adequados ao funcionamento de um mercado. Esse movimento, com o avanço da reconquista, alastra também para sul, através das principais vias de comunicação.
Os primeiros forais que nasceram deste movimento, em território português, foram os de Guimarães e de Constantim (povoação mais tarde suplantada por Vila Real), outorgados pelo Conde D. Henrique, logo no início do seu governo.
O foral de Guimarães, que de ambos deve ter sido o primeiro, tinha como objectivo fomentar o desenvolvimento de um burgo, que já então se teria instalado nesta localidade. Dirige-se aos homens que vieram povoar Guimarães e aos que aí quiserem vir a habitar até ao fim dos tempos e designa-os como burgueses. O foral de Constantlm, como sucederia posteriormente com outros, tomou por modelo o foral de Guimarães.

Nas margens do Lima - fotografia de autor desconhecido

Nem todas as povoações então criadas e onde se fixaram burgueses se incluem na categoria de burgos. Em algumas continuavam a ter grande importância, embora sem carácter exclusivo ou predominante, outras actividades, especialmente as agrárias. As povoações com essas características chamam-se póvoas. Entre elas conta-se Ponte de Lima, cujo foral foi outorgado por D. Teresa em 1125.
Antes do foral de Ponte de Lima já tinha sido outorgado o de Viseu, em 1123, para não falar no do Porto (concedido pelo respectivo bispo, também em 1123) e no de Sernancelhe, de 1124.
Feitas estas considerações, observemos que, por mais bairristas que sejamos, não é correcto afirmar que o foral de Ponte de Lima é o mais antigo e nem sequer que Ponte de Lima é a mais antiga vila de Portugal. Se olharmos apenas às povoações que neste ano de 2012 se incluem na categoria das vilas, com fundação anterior à de Ponte de Lima, encontramos as seguintes, com a respectiva data de fundação ou de outorga do foral (pode clicar para ver o respectivo documento):


Ponte de Lima em dia de feira - fotografia de autor desconhecido   

   Outro problema que por vezes se levanta é o da antiguidade da feira. No foral de Ponte de Lima faz-se alusão à protecção que é dispensada aos que a ela vierem, o que faz com que a feira de Ponte de Lima seja a que tem mais antiga referência nos documentos. Mas isso não significa que fosse a mais antiga feira existente no território. Anteriores à de Ponte de Lima, ainda que não referidas nos documentos, outras deveriam existir, especialmente nas cidades que, embora decrépitas, conseguiriam resistir ao declínio da primeira metade da Idade Média. Realizar-se-iam feiras certamente em Coimbra, Santarém, Guimarães, Constantim, Viseu e noutras localidades, cujos forais são anteriores ao de Ponte de Lima.
      Mas a verdade não pode retirar nenhuma coroa de glória a Ponte de Lima, que continua a ser não só uma das mais belas terras portuguesas, mas também uma das mais antigas povoações, e com uma feira, cuja importância, no decorrer dos tempos, ultrapassou e muito os limites do concelho. A sua história é também uma das mais ricas entre as várias cidades e vilas portuguesas.
    Ponte de Lima nasceu do cruzamento entre a imprescindível via de comunicação que ligava o norte ao sul da península, nesta faixa ocidental, e o bucólico e lendário rio Lima. Era um local de paragem e de prestação de serviços aos que viajavam. Mas tornou-se também um ponto fulcral para a consolidação da independência, porque era a principal passagem da fronteira, em relação à Galiza, no tempo de D. Teresa. Só mais tarde, no tempo de D. Afonso II e sobretudo com D. Afonso III, a fronteira se consolidará definitivamente no rio Minho. Ponte de Lima continuará no entanto, até aos finais do século XV, a ser a mais importante povoação e muitas vezes o centro do extremo noroeste de Portugal. Depois de vários séculos de apagamento, caminha actualmente no sentido de recuperar uma boa parte da importância perdida.

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

Domingo, 11 de Setembro de 2011

Património artístico do mosteiro de Refojos do Lima

1. A igreja

O mosteiro de Refojos, dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, foi o mais importante que existiu no concelho de Ponte de Lima e um dos mais importantes do Alto Minho.
A sua primitiva igreja estaria concluída em meados do século XII e terá sido sagrada em 10 de Novembro de 1154, numa cerimónia a que presidiu o legado pontifício Cardeal Jacinto.
Mais tarde, o  convento e a igreja  iriam sofrer profundas e benéficas alterações na sequência do movimento de reforma consagrado no Concílio de Trento. No próprio ano em que termina o Concílio deram-se os primeiros passos no sentido da incorporação do mosteiro numa congregação de casas da mesma ordem, tendo à cabeça o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. 
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Edifício do mosteiro de Refojos na actualidade

       Com efeito em 26 de Julho de 1564, D. Julião de Alva, bispo de Miranda e Comendatário de Refojos assinava um res­crito que dava todo o poder ao Prior de Santa Cruz para iniciar a reforma do convento de Refojos, enquanto não chegasse a autorização papal para incorpo­rar o dito mosteiro no de Coimbra[1]. Embora o Geral da Congregação de Santa Cruz tomasse posse do mosteiro em 12 de Agosto de 1567[2], a bula papal con­cedendo tal autorização seria expedida de Roma apenas dali a alguns anos, precisamente a 23 de Junho de 1572[3].
       O crescimento resultante da reforma exigia a remodelação e a ampliação da igreja e do edifício do convento. Verdade é que a nova imagem da ordem aos olhos do público não só aumentou o número das vocações monásticas como também moveu os corações e as vontades para que afluíssem ao mos­teiro os necessários recursos económicas, segundo leva a crer o volume cres­cente de doações e testamentos e o multiplicar-se, no arquivo, de papéis relati­vos a actos de administração económica. Entre esses papéis não se contam hoje os relativos às importantes obras levadas a cabo na segunda metade do século XVI. No entanto possuímos elementos suficientes para a sua datação. Num dos contrafortes da capela-mor, do lado norte, o canteiro gravou a data: 1581. Na arquitrave que corre sobre a colunata do claustro, do lado norte, a mais próxima da Igreja, foi lavrada uma inscrição em belas capitais, que diz:

ERA MCLXX AEDIFICATA EST ECCLESIA PRIMA
ET ANNO DOMINI 1581 REAEDIFICATA

Sobre o modo como deve ser corrigido a primeira parte desta inscrição, noutro lugar me pronuncio[4].
 A igreja, segundo a inscrição, “foi reconstruída no ano do Senhor de 1581”. Deve ter sido sagrada pelo Arcebispo de Braga, D. João Afonso de Meneses, no ano de 1582[5]. É um dos templos mais amplos de todo o Alto Minho e alberga no seu interior excelentes obras de arte.
É um pouco insólita a fachada principal do templo, mas a estranheza não lhe vem do equilibrado pórtico construído por volta de 1581, com moti­vos da gramática renascentista – arco redondo simples enquadrado num rectân­gulo limitado lateralmente por colunas compósitas sobre as quais se apoia um entablamento com friso decorado, tendo os ângulos, entre as colunas e o friso, preenchidos por dois medalhões com cabeças humanas – mas de uma transformação da segunda metade do século XVIII, anterior a 1770, pois já se vê no desenho que represen­ta o convento e a quinta à sua volta, incluído no livro do inventário nessa data elaborado[6].
       A parte superior da fachada foi transformada na segunda metade do século XVIII, mas já estava assim em 1770, como se pode ver pelo desenho que represen­ta o convento e a quinta à sua volta, incluído no livro do inventário nessa data elaborado. Foi rasgada uma ampla janela, com dintel curvo, sobrepujada por um falso frontão de linhas côncavas, rodeada por duas palmetas oblongas e divergentes, em simetria, e com um pequeno ornato e fitas planas dobradas e recurvas ligando ao pórtico infrastante. O remate é constituído por uma original solução arquitectónica, tecnicamente arrojada mas esteticamente pouco feliz: as empenas prolongam-se em duas badanas curvas salientes, que rodeiam uma espécie de mísula central onde assenta a cruz cimeira: dá a impressão de que este conjunto foi concebido como se inserido num grande semicírculo recortado por quatro lóbulos em vazio, deixando assim projectadas no espaço aquelas monstruosas aletas.
A torre sineira, parcialmente derrubada por um raio, segundo há memória, foi reconstruída em 1859, data que exibe numa cartela, a meia altura, com pequenas modificações posteriores, como a aplicação do relógio e o acrescentamento à cobertura de um remate bolboso de quatro arestas.
No seu conjunto, a vasta igreja divide-se em dois grandes corpos: a capela­-mor e a nave, em cujas paredes laterais se abrem duas capelas de cada lado, do mesmo modo que uma outra, de dimensões mais reduzidas, no extremo poente da parede setentrional.
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Igreja - capela mor

A capela-mor, de grande profundidade, correspondia às exigências litúrgicas da comunidade regular, e foi coberta por uma abóbada de berço, em granito, em caixotões, cujas molduras fazem lembrar obras idênticas construídas por artistas da região, na mesma época, no Alto e Baixo Minho, tal como já sucedia com o pórtico da entrada[7].
O retábulo da capela-mor é, no seu género, uma das mais felizes obras da arte de meados do século XVIl na região nortenha, se não em todo o país. Reparte-se em três andares, cada um dividido em três partes por colunas manei­ristas que seguem o mesmo ritmo desde a base até ao remate. No primeiro andar abre-se o espaço entre colunas, e sob um frontão curvo, para dar lugar à tribuna destinada às exposições eucarísticas. De ambos os lados, em nichos abrigados entre colunas, estão duas esculturas em madeira estofada, de bom estilo, como todas as do conjunto, representando os apóstolos S. Pedro e S. Paulo. No segundo andar, preside, ao centro, uma bela e artística imagem da padroeira do convento e da freguesia, Santa Maria de Refojos, cuja festa se rea­liza em 15 de Agosto; em cada um dos nichos que a rodeiam, nos compartimentos laterais, assentam as figuras imponentes dos dois santos fundadores e patronos, Santo Agostinho e S. Teotónio. O último andar é ocupado, ao centro, por um con­junto escultórico, que representa a Santíssima Trindade, sob um frontão curvo; as alas laterais são preenchidas com remates ornamentais: molduras, pirâmi­des, volutas...
Dois vitrais recentes, mas de concepção tradicional, deixam entrar a dis­creta luz que ilumina esta ábside. O arco cruzeiro apoia-se em pilastras dóricas e insere-se num conjunto for­mado por um frontão de linhas rectas sobre pilastras jónicas. A ampla nave está coberta por um tecto de madeira compartimentado em caixotões por molduras de perfil simples.
As quatro capelas laterais, duas de cada lado, são também cobertas por abóbadas de berço, em granito, em caixotões idênticos aos da capela-mor, que abrigam retábulos de talha barroca, do “estilo nacional”, das primeiras décadas do século XVIII: colunas torsas, recobertas de pâmpanos, cachos de uva, meni­nos e pombas, sobrepujadas por arquivoltas de pleno cintro com idêntico ornato, “silvas” ou composições simétricas de “folhas de acanto”, nas predelas, plintos e espelhos intermédios, com uma excepção: a tribuna, já rocaille, do retábulo actualmente dedicado ao Sagrado Coração de Jesus.
       Da época de D. João V são os púlpitos inseridos, de ambos os lados da nave, entre cada par destas capelas. Os ângulos entre o cruzeiro e a nave foram também preenchidos com retábulos que os dosseis e certos ornatos vegetais, executados em talha de tendência mais plana, caracterizam como do estilo “joa­nino”, ou seja da segunda metade do reinado de D. João V; da mesma época são as sanefas colocadas por cima dos arcos de abertura para as várias capelas. As urnas dos altares essas são de modesta feitura neoclássica,
        Pelos vários retábulos estão distribuídas esculturas em madeira estofada e dourada, em geral de boa qualidade artística e do século XVIII. Destaque espe­cial talvez mereça a capela de Santo António, com uma bela escultura do santo vestido de Cónego Regrante e dois painéis laterais, da autoria de um artista provinciano das primeiras décadas do século XVIII, representando episódios da vida do santo português: Santo António livrando o pai da forca, e Milagre Eucarístico em resposta ao desafio do hereje.
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S. António vestido como Cónego Regrante

       E não esqueçamos que à entrada, à esquerda, se abre na parede uma outra capela de mais reduzidas dimensões, com um retábulo harmonioso, ainda que de linhas sóbrias, de fins do século XVII, com um interessante painel figurando o Purgatório a ocupar a parte central, e no ático outro painel representando a Coroação da Virgem, tudo da mesma época.
No ângulo entre a entrada e esta capela, por cima da pia baptismal, um quadro do século XVII, expressamente indicado para o local, evoca o Baptismo de Cristo. Na parede da nave, do lado oposto, outro quadro tem por tema a Ceia de Emaús.
       O coro alto assenta num arco abatido de longo diâmetro, estando mobilado com um cadeiral do início de oitocentos, cuja decoração mistura motivos neo­clássicos como outros da época anterior, tendo os espaldares com pinturas da mesma época que representam os santos da ordem.
As obras da sacristia datam do início do século XVIII: a data de 1711 está gravada no arco de granito que separa o espaço mais próximo do templo, enriquecido de uma bela fonte setecentista, do grande salão da sacristia propriamente dita. Aliás uma interessante portada de granito aberta no ângulo es-nordeste do claustro, e que dava para estes lados, tem gra­vada a mesma data: 1711. Está a sacristia coberta por um belo tecto de talha, também das primeiras décadas do século XVIII. Tanto o grande armário dos paramentos como o outro mais pequeno embutido na parede estão adornados com belos trabalhos de metal . Neste momento enriquecem a sacristia duas pinturas em vidro (S. Joaquim e Santa Ana com a Virgem), um quadro figurando a Santíssima Virgem, outro, muito ingénuo, de Santo Agostinho, uma escultura de Santo António como cónego regrante, de inícios do século XVIII, e quatro bustos (relicários?) de madeira, também do século XVIII.
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Pormenor do tecto da sacristia

          Anote-se que, na sua maior parte, as esculturas em madeira que encontra­mos na igreja e sacristia estão já registadas no Inventário dos Bens do Mosteiro de Refojos do Lima, elaborado em 1770, quando, na sequência do Breve Quanto Hora, do Papa Clemente XIV, expedido em 4/7/1770, a pedido do Rei de Portugal, os monges de Refojos foram transferidos para o Convento de Mafra[8].

2. O CONVENTO (de 1580 a 1810)

À reedificação da Igreja, datada, como vimos, de 1581, juntar-se-ia a reconstrução do convento. A essa época remonta o núcleo central do edifício actualmente existente, que se dispõe à volta do claustro, tendo possivelmente as obras continuado no início do século XVII e recebido acréscimos posteriores.
O claustro é nitidamente obra de finais do século XVI e presumivelmente da década de 1580, com uma austera mas bem proporcionada colunata que nos lembra outro claustro da mesma época e, por sinal, de uma comunidade da mesma observância: o do convento de Grijó, de 1574, que, embora de ordem arquitectónica diferente (a de Refojos é toscana e a de Grijó é jónica), até adoptou uma solução idêntica nos quatro ângulos, com colunas adossadas a estreitos tramos de parede, quase à maneira de pila­res, que se fundem um no outro, a fazer esquina. Em Refojos a fórmula adoptada para o andar superior foi mais simples e económica, mas resultou mais harmoniosa e equilibrada: simples janelas que se abrem na parede, em vez da galeria aberta com colunatas, mas de peitoris excessivamente altos, de Grijó.
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Ângulo do claustro do mosteiro de Refojos

       À falta de documentos, não conseguimos saber o nome do artista a quem se devem estas obras, mas o estilo faz-nos pensar em outras realizações disse­minadas pela região na segunda metade do século XVI: Viana do Castelo, Gui­marães, Amarante e mesmo Santiago de Compostela. Se a abóbada da capela­-mor lembra, por exemplo, as das capelas de S. Gonçalo de Amarante ou de S. Martin Pinario, de Compostela, a colunata do claustro encontra afinidade na de S. Francisco de Guimarães, já que a abóbada da capela-mor lembra, por exem­plo, as das capelas das igrejas de S. Gonçalo de Amarante ou de S. Martin Pinario, de Compostela, e para o portal se descobre paralelo em muitas obras nortenhas[9]. O facto de até ao momento não se encontrar qualquer obra datada que preencha uma lacuna de quatro anos na respectiva biografia e as já mencionadas afinidades com obras suas ou de parentes seus nesta região e na Galiza (Mateus e Gonçalo Lopes e João Lopes de Amorim) faz-me pensar num importante artista da nossa região, João Lopes-o-Moço, um pouco relegado para segundo plano entre os seus familiares, pelos estudiosos, devido a um imperfeito conhecimento da sua obra. Mas não se confunda com ele outro artista, um século posterior, se bem que o apelido sugira a sua pertença à mesma família, o qual datou e assinou a parte superior do chafariz existente a meio do claustro:

FECIT IOSEPH LOPES 1683

         Pela diferença de estilo, sou tentado a dizer que se lhe deverá apenas o remate superior desta fonte; mas a taça e o fuste subjacente são trabalho tão incaracterístico e popular que é difícil garantir-lhe uma data precisa, dizendo-o de época anterior.
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Fonte no meio do claustro

Analisando o trecho inferior dos vários alçados, somos levados a pensar que, no essencial, a planta do mosteiro ainda existente remonta ao período ini­cial e é portanto anterior aos fins do século XVII, embora o edifício continuasse a beneficiar de acréscimos sobretudo em altura.
De qualquer modo, era já essa a planta em 1770, na data em que, segundo já referimos, os frades tiveram de se transferir para Mafra, em consequência do plano regalista do Marquês de Pombal. Houve então o cuidado de fazer um inventário minucioso de todos os bens do mosteiro, indo-se ao ponto de executar uma planta da quinta à sua volta, dentro da qual se insere o convento, representando-o em alçado, visto do lado poente[10].
A igreja e o núcleo central do mosteiro situam-se em plano mais recuado, no qual se abre a principal porta de entrada. Dum outro corpo, que surge em plano mais avançado, mas se adivinha ligado ao primeiro pelo prolongamento da ala a sul do claustro, emerge uma parte central, mais alta e dividindo este corpo com alguma assimetria; tem mais um piso, portas ao meio das janelas do segundo e terceiro andar, talvez com sacada a dar sobre a coelheira e o horto.
          Vale também a pena determo-nos um pouco a analisar o modo como, res­peitando e aproveitando as suas condições e aptidões naturais (relevo, água, exposição solar), os monges organizaram o espaço da quinta. A par do terreiro que se estendia na frente da igreja, com o seu cruzeiro implantado no extremo poente, situavam-se, diante da fachada principal do mosteiro, a coelheira e aviá­rio, e as hortas e jardins, divididas em rectângulos, dentro da tradição dos hor­tos à italiana; do lado norte, por trás do celeiro e adegas (as casas a norte do adro), ficava o castanhal, delimitado pelo aqueduto que conduzia a água ao mosteiro. No rectângulo a sudeste do convento frutificava o pomar. O resto da propriedade dividia-se em duas metades: uma do lado norte, entremeado de oli­vais e terras de lavradio, com a parte mais funda a poente apenas em campos de lavradio, bordejados no extremo do seu conjunto por uma fila de árvores; a metade sul estava na sua maioria ocupada pela vinha, com excepção, em con­trapartida, da parte mais baixa, a sudoeste, também repartida por campos de lavradio, contíguos uns aos outros, no seu todo igualmente rodeados por uma fila de árvores. No meio das vinhas situava-se o lagar e, a sudoeste, o pombal.

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 Quinta do mosteiro em 1770

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Após a morte de D. José concluir-se-ia o infeliz período da estadia de Cónegos Regrantes em Mafra. Devido ao projecto regalista do Marquês de Pombal, os religiosos menores de S. Francisco da chamada observância de S. Pedro de Alcântara, a quem D. João V havia concedido o convento, tinham sido dis­tribuídos por outras casas da mesma ordem; em Mafra concentraram-se os Cónegos Regrantes de nove mosteiros que se fez suprimir, incluindo o de S. Vicente de Fora, para onde o Rei desejava transferir a Igreja Patriarcal de Lis­boa, em breve espaço de anos três vezes destruída por incêndios, e o de Refo­jos do Lima[11].
       D. Maria, neste como em muitos outros casos, decidiu repor, na medida do possível, o anterior estado de coisas, por decreto de 11 de Abril de 1780, fazendo regressar os Religiosos Menores a Mafra e restituindo aos Cónegos Regrantes a posse dos seus mosteiros, embora nem todos eles tenham sido reactivados. Na parte que diz respeito a Refojos, a determinação da Rainha foi concretizada na provisão de 29 de Maio e no alvará de 3 de Junho de 1780, que ordenava a restituição à congregação dos Cónegos Regrantes do Mosteiro de Refojos do Lima, de que se havia feito venda ao mestre de campo Pedro Malheiro Pereira Marinho, mandando pagar-lhe “doze contos, quinhentos e vinte mil reis, em satisfação do preço que deu e das despesas que tem feito”, com o objectivo de que o “dito Mosteiro seja outra vez povoado pelos ditos reli­giosos, na forma que ao Dom Prior Geral e seus colegas for possível, pertencen­do-lhe todas as rendas, graças, privilégios e isentos que tivesse ao tempo da sua união ao Mosteiro de Mafra, que ficaria também abolida, como se nunca fora feita”[12]. Foi já em Refojos que, em 26 de Agosto do mesmo ano, se lavrou o auto de entrega, outorgando, de uma parte, o Dr. José António da Mota Gomes, Corregedor da Comarca de Viana do Castelo, e da outra D. André da Anunciação, Procurador Geral da Congregação dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho[13]. Certo é que a reinstalação dos Regrantes em Refojos não foi imediata e, além dos embargos postos pelo mestre de campo Pereira Mari­nho, facilmente ultrapassados, outras dificuldades haveria a superar[14].
       Só depois do Breve pontifício Expositum nobis, expedido em 1792 por Pio VI, o Bispo D. José Maria de Mello poria em andamento os trâmites conducen­tes à efectiva conclusão do processo. Os religiosos de Mafra, assim como os bens respectivos, seriam distribuídos apenas pelos mosteiros de S. Vicente de Fora e pelo de Grijó, e, somente no caso de se verificar ser necessário, pelo de Refojos. Meio ano depois, nova sentença de D. José Maria de Mello decidia em definitivo a reactivação do convento de Refojos, anexando-lhe os bens e rendi­mentos pertencentes ao de Cáramos (concelho de Felgueiras). A partir de 30/12/1794 ficava estabelecido que a Congregação dos Cónegos Regrantes se passava a compor dos Mosteiros Santa Cruz (de Coimbra), S. Vicente de Fora (de Lisboa), S. Salvador de Grijó, S. Agostinho da Serra (do Pilar) e Santa Maria de Refojos, tendo os primeiros 80 e 60 cónegos, respectivamente, e os outros 30 cada, num total de 230, sem contar os religiosos inválidos, desde que estes não ultrapassassem os 20, nem os conversos, que poderiam ir até aos 50, mais 10 inválidos[15].
É depois desta data que se reanima o convento de Refojos. É natural que durante os anos de abandono se tivessem degradado as instalações do mosteiro e mesmo que fizesse falta proceder a uma séria de adaptações às novas circunstâncias.
Em 1802 estão já em curso trabalhos destinados a "concluir e acabar de reedificar a obra do dito mosteiro mandada fazer por insinuação régia", con­forme se exprime um documento do ano seguinte[16].
O traçado das obras a efectuar, das quais se desconhece o risco e o pro­grama escrito, foi confiado ao arquitecto José do Couto[17]. Do projecto cons­taria, por certo, a reconstrução dos muros externos na fachada leste e a remo­delação da fachada poente, cuja conclusão – que apenas se verificou parcial­mente – iria criar uma outra imagem externa, muito mais imponente, do mos­teiro. Cresceu a ala sul desta fachada com o acréscimo de um andar e a deslo­cação mais para norte do pano central, a cujo 1.º andar, a portaria nova, se tinha acesso por solene escadaria. Não chegaram a ser realizadas as obras que levariam à construção duma outra ala, a norte, simétrica com a do lado meridional, o que, a verificar-se, iria dar ao edifício outra majestade.
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 Projecção do que seria a fachada poente do mosteiro se as obras ficassem completas

       No Arquivo do Convento de Refojos do Lima ainda hoje se encontra o livro, onde, mês a mês, se foram registando as despesas com os trabalhos[18]. De 1802 a 1807 decorreram em ritmo crescente as obras, nas quais trabalham diver­sos operários, destacando-se mestre André, na obra de pedraria, e um João, mestre carpinteiro, mas não estão ausentes o ferreiro, os pintores, os caiadores e os trabalhadores indiferenciados, que se ocuparam designadamente na remoção da terra resul­tante dos aterros. O maior volume dos trabalhos diria respeito à renovação dos telhados e à remodelação dos interiores.
       Gastou-se um extraordinário número de telhas, de tijolos (na maioria, segundo creio, para as abóbadas construídas em diversas dependências), e de madeira, sobretudo de castanheiro (o pinho também é usado, mas para os andaimes). A madeira de castanho foi adquirida, em considerável quantidade, na vizinha freguesia da Miranda e no concelho de Ponte da Barca, ao ponto de ser necessário requi­sitar oficialmente, para a transportar, os carreteiros da região[19]. A pedra era quebrada na Passagem e transportada em barcaças, numa parte do percurso, através do rio Lima.
       Nas obras deste período incluiu-se uma capela, segundo penso, no interior do convento, para serviço interno, tendo sido pago em Fevereiro de 1805 o retábulo para a capela nova.
     O ano de 1807 é aquele em que mais intensamente se opera nas obras de Refojos, parecendo que uma das fases está para se concluir, e ainda bem, pois se aproximam anos conturbados, que tornarão difícil o prosseguimento e levarão mesmo a interrompê-las, para depois as recomeçar, sem porém levar a termo o programa inicial.
       A obra mais em destaque realizada neste ano foi a da colocação de azulejo em várias dependências da parte nascente. Ao azulejo se dedica o capítulo seguinte.
Pela mesma data em que eram assentados os azulejos, o convento de Refojos pagava um painel novo para o refeitório e o seu transporte desde Lis­boa[20]. Trata-se do painel da última Ceia, que conhecemos através da fotogra­fia publicado por Mendes Norton, cujo paradeiro se ignora (informaram-nos depois que tinha sido adquirido em Moreira de Lima pela Fundação Ricardo Espírito Santo e entretanto viemos a saber que posteriormente foi adquirido para a Igreja de Cedofeita, no Porto). Uma olhadela super­ficial a este quadro bastará para mais uma vez sorrirmos da ingenuidade daquele autor, que, enamorado do convento que era então propriedade sua, em todos os quadros e azulejos via obras de Rafael Sanzio de Urbino. Pode, no entanto, dizer-se que se trata de um quadro de bom autor e não andaremos longe da verdade se o atribuirmos a Pedro Alexandrino ou a algum dos seus dis­cípulos.

       3. OS AZULEJOS

       Em Junho de 1807, o mosteiro de Refojos pagava perto de 13.000 azulejos adquiridos em Lisboa, fazendo-os conduzir em iate até ao porto de Viana, de onde seguiriam para Refojos[21]. Em Outubro, liquidavam-se mais despesas havi­das com os mesmos[22] e no mês de Novembro pagava-se o trabalho ao respec­tivo assentador[23]. Como observação curiosa, registe-se o facto de ter sido paga em separado a pintura com que, na fábrica, em Lisboa, foram ornados os referidos azulejos, despesa que ultrapassou os 50% do seu custo na origem[24].
       Embora não conhecesse então o documento em que agora me baseio, já em 1984, num breve artigo sobre os azulejos de uma casa dos arredores de Arcos de Valdevez, trazidos de Lisboa há poucas décadas, de um edifício aí demolido na rua da Conceição, apontei a sua afinidade com os de Refojos, con­siderando-os, por conseguinte, vindos de uma fábrica da capital[25]. Infeliz­mente uma grande parte destes já se dispersou e, só através das fotogravuras da delirante obra de Thomaz Mendes Norton conseguimos ter uma panorâmica do extraordinário conjunto por eles formado[26]. É esse, aliás, o único valor de um livro, cujo autor sonhou com a vinda a Refojos do Lima de Bramante e de Rafael para gizar e executar obras que só foram pensadas muitas décadas após a sua morte, no caso da arquitectura, ou quase três séculos depois, como acon­teceu com os azulejos e algumas das pinturas, e ainda por cima se afadigou em vão a recolher elementos, erros e fantasias, para comprovar a sua mirabolante tese.
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 Azulejos da sala do capítulo

Dos quatro grupos de azulejos conservam-se no mosteiro, quase íntegros, os da cozinha, uma boa parte dos da dita sala do capítulo ou capela de S. Teotónio, a meio da ala nascente do claustro, e apenas alguns restos dos demais. Os panos de azulejos que ainda se conservam nas paredes da chamada sala do capítulo ou capela de S. Teotónio têm na parte inferior um rodapé com pintura rajada a sugerir mármore, enquanto a parte superior é constituída por painéis decorativos policromos, que utilizam motivos neoclássicos, cujo uso se difundiu em Portugal no reinado de D. Maria e conti­nuou no de D. João VI, isto é, nas últimas décadas do século XVIII e princípios do século XIX .
       O ciclo barroco chegara à exaustão, e os artistas, tal como o público, esta­vam cansados dos excessos irracionais a que o “rocaille” chegara e desejavam não só a novidade, mas também uma arte mais simples e luminosa, de acordo com a época em que devia predominar a razão, segundo os teóricos do ilumi­nismo. É nessa linha que se dá a revalorização da arte clássica, teorizada por Winckelmann e Mengs, cujas raizes decorativas remontam aos “grutescos” (grotteschi) do século XVI, incrementados após a descoberta da “Domus Aurea” de Nero e de outras ruínas romanas e postos em voga com a decoração das Loggie do Vaticano, sob a orientação de Rafael, mas que hauriram novos motivos de inspiração nas obras postas a descoberto com as escavações de Pompeia e Herculano.
     Estamos aliás no período áureo da faiança nacional, e o bom domínio das técnicas do esmalte e do colorido contribui para a beleza deste azulejos. Nestes, da Sala do Capítulo, o fundo é realizado em esmalte branco, animado por uma ornamentação de grinaldas de flores e ramagens, de cores vivas e harmoniosas, distribuídas com leveza, o que confere a estes painéis uma grande luminosidade e transparência. Ao centro de cada painel há uma elipse, com o eixo maior na vertical, e dentro dela, em azul, um monge vestido com diversos hábitos dos cónegos regrantes, identificados numa cartela rectangular na parte de baixo. Se bem que alguns já estejam mutilados, neste ano da graça de 1987, existem na capela os painéis que ostentavam as seguintes inscrições:

       OS CONEG. R. DE S. VITOR
       OS D.D. PRIOR. DA CONG. DE PORT. EM HAB. PERLAT.
       OS CONEG. R. DA CONG. DE S. SALVADOR
       OS CONEG. R. DA CONG. DE VALVERDE
       OS CONEG. R. DA CONG. DE S. TIAGO
       OS CONEG. R. DA CONG. DE S. COSME
       OS CONEG. R. DA CATH. DE PANPEL.

Faltam os painéis que tinham as legendas relativas aos:

Dd. Priores da Congregação de Portugal em hábito de cor,
Cónegos regran­tes com o seu hábito de cor,
Cónegos Regrantes de S. João de Latrão,
Cónegos Regrantes da Congregação do Espírito Santo, os quais estavam dispostos na pa­rede do lado norte,
Cónegos Regrantes da Congregação de S. João Baptista, a meio da parede do lado sul.

       Mantém-se a toda a volta o rodapé rajado de azul.
     A escultura de S. Teotónio foi substituída por uma outra, bem mais pequena, de S. António, em granito, obra de modesto nível artístico.
      De índole bem diversa era o conjunto de azulejos que existia na sala que Mendes Norton designo como “De profundis”, constituído por nove painéis figurativos, oito deles com grupos humanos, historiando diversas fases da vida do convento, e o outro com uma paisagem e uma árvore em primeiro plano, destinado a encher um espaço mais estreito.
       Os painéis inseriam-se numa composição arquitectónica composta por um soco de que sobressaiam os plintos sobre que se apoiavam pilastras jónicas caneladas, a separar os vários quadros, cuja moldura tinha na parte superior o recorte de um arco composto (semicírculo na parte superior, segmento de recta, na horizontal, arco convexo de ambos os lados), rodeado de ornatos vegetais pela parte de fora (ramos e grinaldas). Não conhecendo o paradeiro destes painéis, é impossível pronunciarmo-nos àcerca do seu colorido, mas, pela composição, pelo desenho e pelo tratamento da figura humana e dos panejamentos, não restam dúvidas de que se trata de um pintor muito vizinho do círculo de Pedro Alexandrino, mas com alguns apontamentos que recordam Pillement. Não se esqueça que o mosteiro pagou separadamente um pintor para a confecção destes azulejos e o trabalho que lhe terá sido encomendado não deveria consistir especificamente na execução de ornatos – para esses a fábrica disporia de artesãos que os fariam como ocupação habitual – mas uma obra diferente, que, mais do que a pintura dos pequenos quadros dos outros conjuntos, incluindo os temas “de genere” da cozinha, seria em primeiro lugar a pintura destes painéis, onde se compendiava a história do mosteiro.
     Um medalhão circular, entre palmas e grinaldas, na parte inferior de cada um dos painéis, identifica o episódio ali historiado. Nem todas estas inscrições estão correctas, o que denuncia o baixo nível de conhecimentos históricos, mesmo em relação ao próprio convento, por parte dos nossos Cónegos Regrantes, ou ao menos por parte daquele que foi encarregado de fornecer o programa ao pintor dos azulejos:

O cavalheiro Afonso Ancemondo, dizendo ao Conde D. Henrique que reconhecimento das victórias alcançados com elle doara a Igreja de Santa Maria e mosteiro ao Prior e Cónegos de Refoyos.
Menendo Afonso filho de Afonso Ancemondo, com sua mulher Dona Gontina, beijando a mão ao Soberano pela doação do condado de Refoyos.
O conde Menendo Afonso, e sua mulher, donna Gontina, fazendo doação do seu condado a seu irmão Dom Pedro Prior de Refoyos, e mais cónegos.
Pelagio Bispo de Tui, dando ao Prior, e mais cónegos, a izenção da igreja de Refoyos e as mais que lhe fossem annexas, da jurisdição bíspal.
O Cardeal Jacinto, legado romano, firmando pela sua autoridade a carta izenção, que concedera Pelagio, bispo de Tuy, à igreja de Refoyos e sua anexas.
O Papa Alexandre 111 dando ao Prior e mais cónegos a bulia de izenção Refoyos, assujeitando-o(?) somente à Sé Apostólica sem mais dependência de alguma diocese.
O novo hospital foi mandado fazer pelo segundo prior desta caza, chamado D. Gonçalo e seos companheiros, respirando a caridade com que deviam ser tratados os doentes e peregrinos.
O prior com seus cónegos, mandando pelo beato Romeu, converso, rece­ber todos os pobres doentes e peregrinos, sobresahindo a caridade do dito con­verso com desempenho desta virtude do christianismo.

       (Todas estas inscrições se encontram em maiúsculas, com excepção dos q, idênticos aos dos alfabetos unciais).
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Refeitório

       Excepcional conjunto formavam também os painéis de azulejo do refeitório, servindo de espaldar às bancadas em que os monges tomavam assento, à volta da sala, nas horas do repasto. No rodapé o centro é ocupado por uma rosácea cercada de flores, e de ambos os lados mais uma vez se aplicou a cor a provocar a sugestão do mármore. Os grandes espaldares estão inscritos num arco composto como o do conjunto anterior, mas sem envolvências arquitectó­nicas. No centro de cada painel emoldura-se uma paisagem, cujo estilo denuncia as influências de Pillement; o resto é preenchido com uma decoração luxuriante: ao alto um vaso cheio de flores, que se apoia em ramagens ou palmas torcidas, do qual desce para cada lado uma grinalda, enrolando-se à volta do peito de dois bustos infantis e da haste vegetal sobre que se apoiam; de um mascarão, que suporta os quadros das paisagens centrais, partem bandas e caules de ramagem que se recurvam e terminam em flores. Sem deixar de ser bela, esta decoração é mais pesada e erudita que a da capela de S. Teotónio, vendo-se perfeitamente que o artista tinha presente o modelo oferecido por alguns conjuntos de azulejos das últimas décadas do século XVI, podendo ser classificados como dessa época por um observador menos atento, se não fossem os rectângulos centrais com paisagens de maneira mais recente.
       No vão situado entre o refeitório e a cozinha, há trechos de azulejos, raja­dos nos rodapés, com decorações florais estilizados, uns azuis e outros policromados.
       A cozinha é um amplo salão, abobadado como o refeitório e várias outras dependências, com duas colunas ao meio. É ampla a chaminé, e no seu lugar está ainda a mesa de pedra, em frente. A toda a volta, as paredes estão revesti­das de azulejos, desde o chão até aos arranques da abóbada. Na maior parte, estes azulejos são lisos, tendo apenas uma cercadura azul a delimitar os vários panos do muro. Em cada um destes panos, há no entanto grupos de azulejos com composições figurativas adequadas a este ambiente e a animar a monoto­nia das paredes: naturezas mortas de tema gastronómico, com variadas quali­dades de peixes, hortícolas, frutos, charcutaria... a denunciarem um artista bom observador e cheio de verve.
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Azulejos da cozinha - pormenor


4. De 1810 a 1834

As invasões francesas fizeram abrandar o ritmo das obras no convento de Refojos, a partir de 1807, mas desde Abril de 1811 cresceu de novo o ritmo dos traba­lhos. No entanto, em relação ao edifício do convento, os documentos apenas referem expressamente a construção da varanda, em 1818 e 1819: aquisições de barcaças de pedra, com a menção expressa de se destinarem aos arcos da varanda, paga­mentos a pedreiros e lavrantes, inclusivamente ao mestre Sebastião.
       Meses antes, em 30 de Abril, o Prior D. José da Expectação passava uma procuração para a celebração de um contrato com o mestre João Alves, de Gondoriz, Arcos de Valdevez, para, sob a direcção do mestre de obras do mos­teiro, derrubar um edifício velho, que ia ter ao adro da igreja, e levantar nova construção, da qual “no S. Miguei será obrigado a ter já prompta hũa p.te do Edifício para se recolherem os frutos”[27]. Apesar de toda esta urgência, parece­-me que a obra – deveria tratar-se da projectada ala norte da fachada poente, frente principal do edifício – não chegou a ser feita, se é que o contrato foi assinado (com efeito, não consegui encontrar a escritura nos livros dos tabeliães de Arcos de Valdevez, onde a procuração supunha que se devia fazer o con­trato).
       E interromperam-se assim, deixando-o incompleto, as obras do mosteiro, visto que os anos posteriores, com a revolução liberal e a agitação que se lhe seguiu, não seriam propícios à sua conclusão.
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Área tradicionalmente conhecida como da abegoaria

       Como já observei, uma parte das despesas efectuadas com as obras, de 1811 a 1818, parece referir-se a melhoramentos efectuados na quinta, incluído o transporte de esteios para as latadas, o que corresponde a uma distribuição da vinha diversa da que existia em 1770.
       Toda a organização do espaço dentro da quinta passava, aliás, a obedecer a outro esquema, ganhando o aspecto que, mais ou menos, ainda hoje apresen­tada. Grandes espaços rectangulares, correspondentes a níveis diferentes, são delimitados por muros de suporte e bordejados de latadas. O caminho que sai da abegoaria, situada na parte sul do convento, em direcção à casa da eira, depois de a contornar, ia ter a uma pérgola circular apoiada numa colunata tos­cana, e daí descia até à parte mais funda da quinta. Para norte e sul desta pér­gola, por debaixo da vinha, chegava-se a dois mirantes de planta quadrangular, nos ângulos da área mais geometrizada da quinta. A superfície com maior den­sidade de vinha continuou a ser a localizada a sudeste do convento, assim como a sudoeste se estendiam os mais extensos campos de cultivo.
       Também se ordenou de maneira diversa o espaço em frente à entrada prin­cipal do mosteiro, do lado poente: o jardim organizou-se à volta do eixo criado pela fonte e pelo grande tanque que dela recebia a água, enquanto o lagar do azeite se mantinha no primitivo assento.
       Era assim, como fica descrito, o convento de Refojos, com a sua quinta, quando em 1834 foi atingido pelo decreto de extinção das ordens religiosas, ela­borado e publicado, contra o veredicto do Conselho de Estado, pelo liberal Joa­quim António de Aguiar! Desde então, o património deste, como o dos outros extintos conventos, passando da Fazenda Nacional para as mãos dos particula­res, foi-se degradando em ritmo crescente, não obstante os esforços pontuais de um ou outro proprietário, para suster a devastadora ferocidade do tempo que passa. As obras implementadas, com o novo destino que foi dado ao edifício do mosteiro e à sua quinta – a nova Escola Superior Agrária –  contribuíram para dar uma nova vida ao muito que ainda resta.
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O edifício do mosteiro com o acréscimo, a nascente, da área destinada a residência de estudantes e estufas para culturas agrícolas na quinta



[1] A.D.B., Mosteiro de Refojos do Lima, maço 180, doc. 92.
[2] A.N.T.T., Mosteiro de Refojos do Lima, códice 78: Livro do Tombo original do Mosteiro de Refojos do Lima feito por André Cabedo de Vasconcelos, 1591, fl. 127: Auto de posse do mosteiro de Refojos em 12/8/1567, pelo Geral da Congregação de Santa Cruz (treslado).
[3] A.D.B., Mosteiro de Refojos do Lima, maço 180, doc. 91.
[4] A construção da primitiva igreja deve ser colocada entre os anos de 1143 (início) e 1152 (conclusão). Nesta inscrição deveria ler-se MCLXL em vez de MCLXX. As origens do convento constituem objecto de outro dos nossos estudos.
[5] D. Nicolau de Santa Maria (não se esqueça a reserva com que este cronista deve ser lido) informa-nos que se fez nesta data, na presença do Arcebispo D. João Afonso de Menezes, a trasladação do corpo do Beato Romeu da capela de S. João de Penas para a capela-mor da nova igreja, onde ficou colocado na parede do lado norte, outro tanto sucedendo com os ossos de um dos fun­dadores, Mendo Afonso, retirados do exterior das paredes da velha igreja para a parede sul da capela-mor do novo templo, onde ficaram assinalados pelo epitáfio, também ele com data errada, hoje embutido nas paredes do claustro. Cf. Nicolau de Santa Maria, Chronica da Ordem dos Cónegos Regrantes do Patriarca S. Agostinho, Lisboa, 1668, pp. 309-310.
[6] A.N.T.T., Mosteiro de Refojos do Lima, códice 71: Inventário dos Bens do Mosteiro de Refojos do Lima, 1770, fl. 277.
[7] Veja-se, a seguir, a nota 9.
[8] A.N.T.T., Mosteiro de Refojos do Lima, códice 71: Inventário dos Bens do Mosteiro de Refojos do Lima, 1770, fl. 40 e 55.
[9] António Matos Reis, Lopes - Uma Família de Artistas em Portugal e na Galiza, em “Revista de Guimarães” 95 (1986). Separa­ta, 1989,
[10] A.N.T.T., Mosteiro de Refojos do Lima, códice 71: Inventário dos Bens do Mosteiro de Refojos do Lima, 1770, citado. A planta ou mapa da quinta, com o convento em alçado, encontra-se a fls. 277.
[11] A.N.T.T., Mosteiro de Refojos do Lima, maço 10, doc. 91: Processo de restituição do mosteiro aos Cónegos Regrantes.
[12] Ibidem, ibidem.
[13] Ibidem, ibidem.
[14] Ibidem, ibidem.
[15] Ibidem, ibidem: Sentenças executórias do Breve Expositum nobis de Pio VI.
[16] A.D.B., Mosteiro de Refojos do Lima, maço 180, doc. 113. Os trabalhos devem ter começado em meados de 1801, encontrando-se as respectivas despesas registadas no Livro da receita e despesa deste Real Mosteiro de Santa Maria de Refoyos do Lima, que teve o seu princípio no primeiro de Julho de 1801, sendo o prior o Rev. º D. Ildefonso de Nossa Senhora do Carmo e Procura­dor e Camerário o Cónego D. Bento da Senhora das Dores. Este códice encontra-se no A. D. B., Mosteiro de Refojos do Lima, cota 42, sendo designado no respectivo inventário por Livro das Receitas e Despesas da Camararia. O termo de abertura é de 4 de Janeiro de 1802.
[17] A.D.B., Mosteiro de Refojos do Lima, CR 42: Livro das Receitas e Despesas da Camararia, citado, fl. 44 v.º, onde, em Fevereiro de 1806, averba o seguinte: “Em hum risco para as obras, e jornada do Arquitecto José do Couto no principio do triénio passado, o que tudo ultimamente em cab.º se mandou pagar - 69.340”. Em Maio do mesmo ano paga-se o “Seguro de hum risco que foi para Lisboa - 1.110”.
[18] A.D.B., Mosteiro de Refojos do Lima, CR 42: Livro das Receitas e Despesas da Camararia, já citado.
[19] A.D.B., Mosteiro de Refojos do Lima, maço 180, doc. 113.
[20] A.D.B., Mosteiro de Refojos do Lima, CR 42: Livro das Receitas e Despesas da Camararia, citado, fl. 68: “Em hum Painel p.ª o Refeitório – 120.000 / Em hum caixão p.ª o d.º e mais despesas feitas em Lx.ª – 1.320”.
[21] A.D.B., Mosteiro de Refojos do Lima, CR 42: Livro das Receitas e Despesas da Camararia, citado, fl. 61: “Em a despesa  de 12.932 azulejos, pertencente à fábrica, e ladrilhador – 315.736”.
[22] Ibidem, fl. 68: “Em o resto do azulejo, pintura, mais despesas com o dito feitas em Lx.ª – 275.214”
[23] Ibidem, fl. 69: “Em o assento de 10.739 azulejos a 3.800 – 40.950 / Em 50 dias que o assentador do azulejo trabalhou por conta da caza a 120 – 6000 / Em a jornada do dito assentador e convite – 25.600”.
[24] Ibidem, fl. 61 v.º: “D.ª em a pintura dos azulejos – 380.640”
[25] António Matos Reis, Os Azulejos Neo-clássicos da Casa das Cortinhas, em “Terra de Val de Vez” 7 (1984), p. 59-62.
[26] Thomaz Mendes Norton, Études sur les Oeuvres d’Art de Raphael Sanzio D’Urbino au Monastère de Refojos do Lima, Lisboa, 1888. J. M. dos Santos Simões, Azulejaria em Portugal no século XVIII, Lisboa, 1978, p. 90, em nota, refere que alguns desses painéis de azulejos se encontram na casa do Dr. Lusitano Brites, de S. Pedro do Estoril. Há alguns anos tive a oportunidade de ver alguns azulejos do conjunto proveniente do refeitório, numa moradia do concelho de Ponte de Lima (da família Norton, na freguesia de Queijada).
[27] A.D.B., Mosteiro de Refojos do Lima, maço 180, doc. 107 e 124.

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